Abril é o mês dedicado à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho (SST) no Brasil. O Abril Verde converge com o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Em 2026, a campanha tem peso adicional: a atualização da Norma Regulamentadora NR-1 passou a exigir que empresas incluam riscos psicossociais, como burnout e ansiedade, no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Segundo a OIT, cerca de 2,3 milhões de profissionais morrem a cada ano em decorrência de acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho, enquanto 374 milhões sofrem lesões ou adoecem em acidentes não fatais. No Brasil, os transtornos mentais figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, de acordo com dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O que é o Abril Verde e qual é a sua origem
O Abril Verde é uma campanha nacional de conscientização sobre saúde e segurança no trabalho, realizada ao longo de todo o mês de abril. O ponto central é o dia 28 de abril, data estabelecida pela OIT como Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho. A data foi fixada em 2003 em memória de um acidente grave ocorrido em Virgínia, nos Estados Unidos, em 1969: a explosão de uma mina que resultou na morte de 78 trabalhadores. Além do 28 de abril, o dia 7 de abril marca o Dia Mundial da Saúde, compondo uma agenda dupla de prevenção no primeiro terço do mês.
A campanha tem três pilares: prevenção de acidentes físicos, proteção da saúde mental e adoção de tecnologias para ampliar a segurança. Eles refletem a transformação do conceito de risco ocupacional, que não está mais restrito a máquinas e ambientes físicos e passou a incluir fatores organizacionais e psicológicos.
O que são riscos psicossociais e por que eles entraram na pauta
Riscos psicossociais são fatores do ambiente de trabalho que podem comprometer a saúde mental e física do trabalhador. O conceito abrange condições como excesso crônico de demandas e ausência de autonomia, que corroem a capacidade de recuperação do trabalhador ao longo do tempo. Situações de assédio moral ou sexual, insegurança prolongada no emprego e falta de reconhecimento também integram essa categoria, pois afetam diretamente o equilíbrio emocional e a motivação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a OIT publicaram diretrizes conjuntas em 2022 estabelecendo que esses fatores devem ser gerenciados com a mesma rigorosidade aplicada aos riscos físicos e químicos.
No Brasil, a atualização da NR-1 tornou obrigatória a inclusão desses fatores no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). O Ministério do Trabalho lançou um manual para orientar as empresas e informou que todas, independentemente do porte, têm que avaliar esses fatores de risco, com metodologias adaptáveis à realidade de cada organização.
A mudança representa uma ruptura com a abordagem histórica da SST brasileira, que priorizava acidentes físicos. A exigência alcança desde microempresas até grandes corporações.
O que mudou na NR-1: entendendo a atualização
A NR-1 é a norma regulamentadora que estabelece disposições gerais sobre saúde e segurança do trabalho no Brasil. Ela define o contexto em que todas as demais NRs operam. A versão atualizada em 2024 inseriu os riscos psicossociais como categoria formal dentro do GRO e passou a exigir que as empresas identifiquem, avaliem e implementem medidas de controle para esses fatores. Para entender os detalhes técnicos da nova redação, consulte o guia Nova NR-1: o que muda e como se adaptar às exigências.
O que é o GRO e como funciona na prática
O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais é o processo sistemático de identificação, avaliação e controle dos riscos presentes no ambiente de trabalho. Ele se materializa no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Com a atualização da NR-1, o PGR passou a contemplar não apenas riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos, mas também os psicossociais.
Na prática, isso significa que a empresa deve mapear quais cargos e equipes estão expostos a cargas excessivas, a conflitos crônicos ou a ambientes de trabalho que favorecem o adoecimento psíquico. Com base nesse mapeamento, precisam ser definidas metas de controle e monitoramento, com registros atualizados periodicamente.
Erros comuns na adequação ao PGR e à NR-1 atualizada estão documentados no artigo que detalha pontos críticos enfrentados por departamentos de RH e segurança do trabalho.
Burnout no trabalho: definição, sintomas e relação com a SST
A síndrome de burnout foi reconhecida pela OMS como fenômeno ocupacional na CID-11, que entrou em vigor em janeiro de 2022. A Organização define burnout como resultado de estresse crônico no local de trabalho, não administrado com êxito.
Os sintomas incluem exaustão intensa, distanciamento mental do trabalho, sentimentos de negativismo em relação às atividades profissionais e redução da eficácia. O diagnóstico é clínico, feito por médico ou psicólogo, e deve considerar se os sintomas estão diretamente vinculados ao contexto laboral. Ansiedade, depressão e burnout podem coexistir, mas cada um tem critérios diagnósticos próprios.
Burnout versus estresse ocupacional: diferenças relevantes
O estresse ocupacional é uma resposta fisiológica e psicológica a demandas que excedem temporariamente a capacidade do trabalhador. É reversível com descanso e reorganização das demandas. O burnout é um estado de esgotamento crônico que se instala quando o estresse prolongado não é tratado. Ele se caracteriza pela perda de sentido no trabalho e pela dificuldade de recuperação mesmo após períodos de descanso. Pesquisas mostram que 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sintomas de burnout, dado que posiciona o Brasil entre os países com maior prevalência de esgotamento ocupacional.
Mitos sobre saúde e segurança no trabalho
SST se resume à prevenção de acidentes físicos
Essa visão estava correta até meados do século XX, mas é tecnicamente ultrapassada. A definição contemporânea de SST, adotada pela OIT e pela OMS, inclui a saúde física, mental e social do trabalhador. A atualização da NR-1 em 2024 consolidou essa mudança no ordenamento jurídico brasileiro, ao tornar obrigatória a gestão dos riscos psicossociais dentro do PGR.
Apenas grandes empresas precisam se adequar à atualização da NR-1
A NR-1 se aplica a todos os empregadores que contratam trabalhadores regidos pela CLT, independentemente do porte. Microempresas e empresas de pequeno porte estão sujeitas às mesmas obrigações, embora a metodologia de avaliação de riscos possa ser simplificada. O não cumprimento pode resultar em autuação fiscal e em ações trabalhistas.
Burnout é fraqueza individual e não responsabilidade da empresa
A OMS classifica o burnout como fenômeno de origem ocupacional, o que implica que as condições de trabalho são corresponsáveis pelo seu desenvolvimento. Empresas que implementam metas inatingíveis, permitem horas extras excessivas e não combatem ambientes hostis contribuem para o adoecimento. A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho já reconhece o direito de indenização por danos morais em casos de burnout provocado por gestão abusiva.
A inteligência artificial vai eliminar os riscos do trabalho automaticamente
A IA pode monitorar dados de fadiga, identificar padrões de risco e apoiar a triagem de saúde mental, mas não substitui políticas organizacionais de prevenção. O Dia Mundial da SST de 2025 teve como tema central justamente a relação entre digitalização e segurança do trabalho, alertando para novos riscos introduzidos pela automação, como vigilância excessiva, sobrecarga algorítmica e desemprego tecnológico.
Acesso ao cuidado e o papel das empresas na prevenção
A OMS e a OIT publicaram diretrizes conjuntas recomendando que empregadores adotem abordagem de três níveis na gestão da saúde mental: prevenção primária (eliminar ou reduzir riscos na fonte), prevenção secundária (identificar e tratar precocemente) e prevenção terciária (reabilitar e reintegrar trabalhadores afastados).
A prevenção primária é a menos praticada e a mais eficaz. Ela exige que a organização do trabalho seja redesenhada para reduzir exposição a riscos, algo que demanda comprometimento da alta liderança e não apenas de equipes de RH ou saúde ocupacional. Exemplos incluem políticas de desconexão digital fora do horário de trabalho, redistribuição de carga em períodos de pico e revisão de metas incompatíveis com o volume de recursos disponíveis.
Para desenvolver essa estratégia com suporte especializado e em conformidade com a NR-1, o Oxy, da epharma, oferece uma solução completa que viabiliza a implementação do PGR e a gestão de riscos psicossociais. A plataforma integra dados de saúde ocupacional, mapeamento de riscos e geração de relatórios, atendendo às necessidades do SESMT e da liderança.
Perguntas frequentes sobre Abril Verde e saúde no trabalho
O que é acidente de trabalho, segundo a lei brasileira?
Acidente de trabalho é aquele que ocorre pelo exercício da atividade a serviço de empresa ou de empregador doméstico, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, a perda ou a redução permanente ou temporária da capacidade laboral. A definição está na Lei 8.213/1991. Doenças ocupacionais equiparadas a acidente de trabalho incluem aquelas desencadeadas pelas condições laborais, o que abrange os transtornos mentais de origem ocupacional.
Burnout dá direito a afastamento pelo INSS?
Sim. O burnout, quando devidamente diagnosticado por médico e associado ao contexto de trabalho, pode justificar afastamento previdenciário. O trabalhador deve apresentar atestado médico com CID correspondente ao seu empregador, que tem obrigação de comunicar ao INSS por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) quando o adoecimento é de origem ocupacional. O afastamento por mais de 15 dias gera direito ao benefício por incapacidade temporária.
Quais empresas são obrigadas a ter CIPA?
A obrigatoriedade da CIPA está definida no Quadro I da NR-5, que cruza o grau de risco da atividade econômica com o número de empregados. Em geral, empresas com mais de 20 trabalhadores em atividades de grau de risco 3 ou 4 são obrigadas a constituir a comissão com representação eleita dos trabalhadores. Empresas abaixo desse patamar devem designar um responsável pela CIPA, sem necessidade de eleição.
Ansiedade no trabalho: o que fazer antes de buscar um médico?
Identificar os gatilhos é o primeiro passo. Registrar situações que provocam sintomas, como reuniões específicas, prazos ou conflitos com colegas, ajuda a delimitar se a origem é ocupacional ou ampliada por fatores pessoais. Técnicas de regulação como respiração diafragmática e pausas estruturadas têm evidência científica para redução de sintomas leves. Se os sintomas persistem por mais de duas semanas ou interferem no desempenho e nas relações, o encaminhamento a psicólogo ou médico é indicado. No ambiente corporativo, canais de escuta e programas de assistência ao empregado são a porta de entrada mais acessível.
Abril Verde o ano todo
No Brasil, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais em 2025, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social publicados em janeiro de 2026. O Abril Verde de 2026 representa uma inflexão no modelo brasileiro de saúde e segurança no trabalho. A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 não é apenas uma exigência regulatória: é o reconhecimento formal de que o adoecimento mental tem origem nas condições de trabalho e que as empresas têm responsabilidade legal e ética sobre isso.


















