O diabetes é uma doença crônica onde a alimentação é essencial para controle da glicemia e prevenção de complicações. O manejo inadequado da dieta e o uso incorreto das medicações prescritas podem causar problemas a médio e longo prazos, como perda de sensibilidade nos dedos dos pés, problemas no coração, mau funcionamento dos rins e cegueira.  

A Importância do Controle Alimentar 

O controle alimentar é fundamental para o manejo da doença, independente do uso de medicamentos ou insulina. O estudo internacional “The UK Prospective Diabetes Study Group” descobriu que a redução de 1% na Hemoglobina Glicada, um dos indicadores de controle glicêmico, está associada à redução de 21% do risco de complicações relacionadas ao diabetes, e à redução de 37% no risco de complicações microvasculares, que podem levar à cegueira ou à falência dos rins. Um bom índice de Hemoglobina Glicada reflete um controle adequado da glicemia e da doença, seja pela alimentação, exercícios físicos ou pelo uso correto dos medicamentos. 

Ao contrário do que se pensa, a alimentação da pessoa com diabetes é muito semelhante àquela recomendada para todas as pessoas. 

Recomendações gerais: 

O papel das gorduras saturadas no desenvolvimento e controle do diabetes tipo 2 

Sabe-se que um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2 é o excesso de peso, com acúmulo de gordura na região abdominal, mesmo em pessoas que consomem pouco açúcar e doces. Muitos estudos têm demonstrado o papel das gorduras saturadas na resistência à insulina, que é uma das principais características do diabetes tipo 2, onde a insulina deixa de cumprir o seu papel pois as células não a reconhecem mais, aumentando então os níveis de glicose no sangue.  

As gorduras saturadas são, em geral, sólidas em temperatura ambiente e provenientes de alimentos de origem animal, como carnes, pele e aves, peixes gordurosos, gema de ovo, leite integral, manteiga e creme de leite. Alimentos de origem vegetal, como coco (em especial o óleo de coco), manteiga de cacau e óleo de palma também contêm gordura saturada na sua composição. A maior parte dos estudos analisam o consumo de carne e o impacto no desenvolvimento do diabetes tipo 2, considerando que este é um alimento consumido por todas as populações, e cada vez em quantidades maiores, o que poderia explicar o crescimento na população de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer. 

Um estudo que analisou os dados de quase 2 milhões de pessoas no mundo mostrou que o maior consumo de carne vermelha foi associado a uma maior incidência de diabetes tipo 2, corroborando a recomendação de reduzir o consumo de carne vermelha e carnes processadas para reduzir a incidência de diabetes tipo 2. 

O consumo de outros alimentos ainda não foi pesquisado a fundo para estabelecer essa relação, porém diversos estudos em laboratório mostram o aumento da resistência à insulina com o consumo regular e frequente de gorduras saturadas. Portanto, além do controle da ingestão de carboidratos, é importante moderar o consumo de alimentos com gordura saturada para a prevenção e controle do diabetes tipo 2. 

Diferença entre diet e light

Diet ou Zero = ISENÇÃO de algum componente. Pode ser de açúcar, de proteínas, de sal, etc., sendo normalmente de açúcar. 

Light = REDUÇÃO de algo. Um produto light pode ainda conter açúcar, por isso não deve ser consumido como se fosse diet

Na dúvida, cheque na lista de ingredientes da embalagem se o produto contém: açúcar, sacarose, frutose, maltose, xarope de milho, maltodextrina, mel ou melado. Caso contenha algum destes ingredientes, o produto não é feito para diabéticos, então não deve ser consumido. 

Trocas alimentares:  

A tabela a seguir mostra os tipos de alimentos que devem evitados, e por quais podem ser substituídos na alimentação.  

TIPO DE ALIMENTO EVITAR SUBSTITUIR POR 
Pães, cereais, arroz, massas, amidos Panquecas, crepes, panetone Produtos de confeitaria ricos em gordura, como tortas com massa podre e folhados Biscoitos recheados, amanteigados e de nata Pães e biscoitos integrais Arroz integral Massas integrais Biscoitos integrais sem recheio, tipo cream cracker integral 
Frutas, legumes e verduras Suco de laranja natural Frutas em calda com açúcar (pêssego, abacaxi, figo, cereja) Frutas cristalizadas Doces de frutas (goiabada, cocada) Frutas em calda diet (sem açúcar) Frutas secas (uva passa, damasco), com moderação Todas as outras frutas, sempre com casca e com bagaço 
Leguminosas Oleaginosas e sementes Todos podem ser consumidos: feijão, lentilha, grão de bico, soja, ervilha; castanhas, nozes, amêndoas; pasta de amendoim sem açúcar; sementes de linhaça, chia, girassol e gergelim 
Leite, queijo e iogurte Leite e iogurtes integrais e com açúcar Achocolatados e bebidas lácteas prontas para beber Queijos em excesso, mesmo o branco Requeijão ou cream cheese comuns Leite e iogurte desnatados e sem açúcar (zero açúcar) Queijo tipo ricota ou cottage Requeijão, creme de ricota ou cream cheese light 
Carnes, aves, peixes e ovos Frituras ou à milanesa Carnes gordas (costela, picanha, cupim, fraldinha, toucinho, bisteca, bacon, fígado rins, coração, linguiça, contrafilé) Frango com pele Gema de ovo Embutidos ricos em gordura (mortadela, salame, copa, presunto gordo, salsicha) Assados e grelhados Carnes magras (patinho, coxão mole, coxão duro, lagarto, músculo, lombo de porco, filé mignon suíno) Peito de frango ou peru sem pele Clara de ovo Peixes Frios magros (peito ou blanquet de peru) 
Gorduras Manteiga, banha e maionese Creme de leite, chantilly, nata Margarina ou azeite de oliva Óleos vegetais (soja, milho, azeite, etc) 
Doces Açúcar (refinado, mascavo, demerara, cristal ou de confeiteiro), mel, melado, rapadura, xarope de milho, refrigerantes, leite condensado, geleias e gelatinas comuns, biscoitos doces, doces não dietéticos Todos os produtos doces que sejam dietéticos (refrigerantes, geleias, bolos, doces, chocolates, achocolatados, etc.) Adoçantes dietéticos (veja mais informações na última página deste material) 

Preferir os alimentos ricos em fibras: 

Evitar o consumo de alimentos ricos em gorduras, especialmente gorduras saturadas: 

Especificidades no Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1) 

O diabetes tipo 1 acomete principalmente crianças, adolescentes e jovens, e a sua instalação e desenvolvimento independe do peso e estilo de vida. As causas do diabetes tipo 1 ainda não são completamente conhecidas, mas acredita-se que exista um mecanismo autoimune que faz o organismo agir contra as células beta do pâncreas, que produzem a insulina. O tratamento é feito com alimentação equilibrada e aplicação de insulina, já que o organismo não é capaz de produzir o hormônio de forma adequada. 

De acordo com a última Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, não há dieta padronizada para pessoas com diabetes tipo 1, sendo necessário individualizar de acordo com o peso, o controle glicêmico, as preferências, o risco de hipoglicemia, além de considerar condições metabólicas, socioeconômica e culturais do paciente. Monitorar a ingestão de carboidratos e considerar a resposta glicêmica aos carboidratos da dieta é essencial para melhorar o controle da glicose após a ingestão de alimentos. O uso de dispositivos que mensuram a glicemia capilar, como os glicosímetros e os sensores de glicemia, são essenciais para o manejo e controle da doença no dia a dia, já que exames laboratoriais nem sempre estão disponíveis e são mais complexos de serem realizados. 

Assim como nos casos de diabetes tipo 2, preconiza-se a ingestão de carboidratos de fontes densas em nutrientes, que são ricas em fibras e minimamente processadas, como cereais integrais, frutas, leguminosas e leite e derivados minimamente processados. Carboidratos provenientes de alimentos ultraprocessados, como salgadinhos de pacote, refrigerantes, biscoitos recheados, iogurtes com açúcar e cereais matinais refinados devem ser evitados. 

A Diretriz propõe ainda que a restrição de carboidratos (dieta low-carb ou cetogênicas) em pessoas com DM1, como ferramenta para controle glicêmico no curto prazo, pode ser considerada com cautela, já que faltam evidências de eficácia e segurança a longo prazo. É importante considerar que os possíveis benefícios da restrição de carboidratos no tratamento do DM1 devem ser ponderados com os possíveis efeitos adversos à saúde, considerando, principalmente, que os desfechos em longo prazo, especialmente em crianças e adolescentes, são desconhecidos. Dietas com muito baixo teor de carboidratos não têm segurança comprovada e têm impacto desconhecido sobre o crescimento e desenvolvimento. Também é importante avaliar o impacto metabólico da substituição de carboidratos por proteínas e gorduras em longo prazo no risco de doenças renais e cardiovasculares. 

Contagem de Carboidratos 

A Contagem de Carboidratos é um método de controle de ingestão da quantidade de carboidrato ingerida pelo paciente, onde ele aprende a identificar o tamanho das porções e pode substituir alimentos equivalentes utilizando listas em que os alimentos são agrupados, e cada equivalente de carboidratos fornece cerca de 15g deste nutriente. O paciente deve manter metas de carboidratos por refeições, de acordo com as suas características e necessidades individuais. Qualquer indivíduo com DM que utiliza insulina rápida ou ultra rápida na hora das refeições deve receber educação intensiva e contínua sobre a necessidade de combinar a administração de insulina com a ingestão de carboidratos. 

Exemplo de cardápio para diabéticos 

Café da manhã 

Almoço 

Lanche da tarde 

Jantar 

Repetir o almoço, ou fazer um lanche: 

Evitar sucos de frutas, mesmo os naturais, pois são ricos em frutose, que é o açúcar natural da fruta. Beber somente água e chás sem açúcar. 

Descubra mais sobre nutrição no nosso blog.   

Escrito por:   Lia Kanae Okita Buschinelli / CRN-3 26.028, Nutricionista graduada pela Universidade de São Paulo (USP), com experiência internacional em nutrição e dietética na Universidade McGill, no Canadá.   

Fontes: 

King P, Peacock I, Donnelly R. The UK prospective diabetes study (UKPDS): clinical and therapeutic implications for type 2 diabetes. Br J Clin Pharmacol. 1999 Nov;48(5):643-8. 

Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). 

Li, Chunxiao et al. Meat consumption and incident type 2 diabetes: an individual-participant federated meta-analysis of 1·97 million adults with 100 000 incident cases from 31 cohorts in 20 countries. The Lancet Diabetes & Endocrinology, Volume 12, Issue 9, 619 – 630.